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TV Estadão | 22.10.2009

Em entrevista ao repórter Jotabê Medeiros, de O Estado de S. Paulo, o biógrafo Paulo César Araújo fala sobre ação judicial que recolheu “Roberto Carlos em detalhes” das livrarias há quase três anos.

Como o embed não funciona, clique aqui para assistir.

por Edmundo Leite, Seção: Geral 02:35:12. n0 blog Bate Pronto do estadao.com.br, em 16/02/2007

Quem usa internet há algum tempo já sabe: quando se recebe o segundo e-mail com a mesma mensagem, vindos de remetentes diferentes, não vai demorar para que vários outros iguais comecem a surgir na caixa postal.

Apesar de os temas dessas correntes serem variados, geralmente os que predominam são aqueles textos com alguma sacada sobre o modo de ver a vida atribuída ao Arnaldo Jabor ou ao Verissimo, outros do estilo ‘brasileiro indignado’, que surgem após aumento de salário dos deputados e de crimes de grande repercussão, ou aqueles panfletários, de mobilização em favor de uma causa.

Mesmo ofuscada pela comoção em torno da morte de um garoto num assalto no Rio de Janeiro, uma velha causa nacional voltou a ganhar força nos botões “encaminhar” dos outlooks e afins nos últimos dias: a rivalidade entre os pilotos Ayrton Senna e Michael Schumacher.

A coisa dessa vez começou, no dizer das mensagens, “quando um brasileiro descobriu a parada e começou a começou a espalhar o link para todos os brasileiros.” A parada, no caso, era uma enquete do jornal italiano Corriere della Serra, que perguntava aos seus leitores qual o maior piloto de Fórmula 1 de todos os tempos? E como no momento que esse brasileiro descobriu a parada o alemão estava (como muitas vezes em sua carreira) vencendo, iniciou-se a cruzada virtual em prol do “nosso campeão”.

Como a campanha se propagou com uma velocidade que faz juz ao tema, Senna logo ultrapassou Shumacher e nesse momento (23h de quinta-feira) ocupa a pole position com 62,4% dos respeitáveis mais de três milhões de votos. O que significa que pelo menos dois milhões de cliques foram dados em favor do brasileiro.

Mesmo que o número de votos não corresponda ao número real de pessoas (apesar dos mecanismos adotados pelo site para impedir o voto múltiplo é possível que os mais fanáticos tenham dado um jeito de votar várias vezes) é uma cifra respeitável.

Tirando o aspecto divertido da coisa, que é aquele espírito de porco típico de adolescente que tem capacidade de melar coisas pretensamente sérias (como uma torta na cara jogada de engravatados), a quantidade milionária de votos diz respeito a outras questões que vão além da pergunta sobre quem foi o melhor piloto de todos os tempos, impossível de ser respondida.

Um post num blog com link para a enquete, conclamava: “Vote no Senna (rápido!).” É como se dissesse “mexeram com um de nós, vamos pro pau!”. Reflexão zero, apesar de estar num blog que costuma se autoproclamar bem-pensante.

Um mandamento não escrito, mas seguido cegamente por outros bem-pensantes, reza que interatividade é fundamental para o sucesso na internet. Seguida como dogma, a busca pela interatividade faz com que enquetes como essa do jornal italiano proliferem. E com a recente obrigação de outra interatividade, a dos jornais impressos com o seu braço internético, cada vez mais essas sondagens são usadas como fonte para matérias jornalísticas. Na maioria das vezes não passam de algo do tipo “leitor prefere isso a aquilo ou é contra tal medida”.

Qual a importância dessa opinião, comprovadamente contaminada, como mostra esse caso, que não a de satisfazer um impulso cliqueiro insano do leitor? E porque esse leitor – no caso o brasileiro – não se contenta em aproveitar a oportunidade de conhecer o que pensam os italianos sobre o assunto? Não seria muito mais interessante saber que os italianos acham Schumacher melhor que Senna, do que ver o brasileiro vencedor de uma espécie de gincana colegial de dimensão desproporcional?

E, para que esse post não fique deslocado do assunto que o originou e da seção de esportes, mais algumas questões: porque os brasileiros não podem se perguntar se o Schumacher não terá sido mesmo melhor que o Senna? Será que o Senna, que antes mesmo daquele 1994 via Schumacher cada vez mais perto em seu retrovisor, já não estava com aquela sensação desagradável de ver que chegou o dia – nunca esperado – de que um novato tão ou mais talentoso começa a ocupar o seu lugar?

Não responda a essas perguntas. Todos os comentários serão deletados.

Morre o ’sócio’ Narciso, ícone da boemia de SP. Câmbio final
Fundador do folclórico bar “Cu do Padre”, Narciso Moreno, morre aos 81 anos

Texto publicado originalmente no Estadao.com.br em 2 de março de 2009, 17:13

Edmundo Leite

- O que vai querer, sócio?

- Uma de morango, sócio.

- Saindo uma de morango, câmbio.

O diálogo que embalou gerações de boêmios paulistanos que frequentaram o pequeno bar de Pinheiros especializado em batidas perdeu seu principal interlocutor. Morreu na semana passada, aos 81 anos, Narciso Moreno, fundador do folclórico boteco conhecido como “Cu do padre”. O nome oficial – “Bar das Batidas” – só mesmo numa pequena placa luminosa e – por formalismo ou pudor – nos guias de bares dos jornais e revistas. No mundo real, era mesmo conhecido pelo nome sacana, que (como todo bom apreciador dos prazeres etílicos da cidade sabia) se originou da localização do bar: uma esquina aos fundos da igreja do Largo de Pinheiros, que também ninguém chama pelo nome oficial, Nossa Senhora de Mont Serrat.

Um dos bares mais antigos da cidade ainda em atividade tocado pelo mesmo dono, foi fundado em 1957, quando bondes e cavalos ainda circulavam pela região. Ao longo dos mais de 50 anos no balcão onde preparava as deliciosas batidas de frutas, o “Sócio”, como chamava a todos os fregueses e como era chamado por todos, viu passar por ali boêmios de todas as espécies: universitários que ainda usavam gravatas, as primeiras minissaias, hippies com calças boca-de-sino e cabelos compridos, coloridos new-waves, playboys, mauricinhos e patricinhas.

Seja pelo nome, pelas saborosas batidas, pela intimidade que concedida no tratamento aos fregueses, pelo cenário composto de velhas garrafas e peças de frios cobertos por uma espécie de lava vulcânica acumulada pelo tempo, como aqueles objetos achados nas ruínas de Pompeia, ou por tudo isso junto, tornou-se um clássico da noite de São Paulo.

A preparação das bebidas – que por muitos anos foi feita junto com o irmão Mario, falecido há alguns anos – seguia um ritual. Após anotar mentalmente os pedidos de vários fregueses, sempre com “sócio” na pergunta e “câmbio”, do jargão das conversas por rádio na resposta, seguia-se o enfileiramento dos copos para o início de um pequeno show. Primeiro um malabarismo com o gelo e as pedras sendo atiradas com precisão aos copos.

Depois vinha a seleção dos ingredientes, que ficavam dispostos numa prateleira atrás do balcão: das garrafas plásticas saíam os sucos de frutas batidas previamente naqueles liquidificadores bem antigos. Das garrafas de bebidas alcoólicas estrategicamente viradas, de modo que o rótulo não ficasse visível, vinha a combinação que temperava as batidas. O mistério de não saber exatamente do que se tratava o coquetel era um dos charmes. Para finalizar, os canudinhos atirados no líquido consistente e a distribuição aos fregueses: “morango, câmbio…”; “côco, câmbio…”; “maracujá, câmbio…”

Nos últimos tempos, por causa da idade e os problemas de saúde, já não havia mais a agilidade para o malabarismo e nem a rapidez para preparar várias batidas ao mesmo tempo. Mesmo com um câncer diagnosticado há cinco anos, o Sócio deu expediente no balcão até 15 dias antes da morte, na segunda-feira de carnaval. Fazia questão de preparar pessoalmente as batidas e os sanduíches – o de calabresa era o mais tradicional – que fizeram a fama do local.

Apesar da proximidade, a missa de sétimo dia do Sócio, no domingo, 1º, não foi na igreja que serviu de batismo ao boteco, mas em outra pouco mais adiante: a da Nossa Senhora Mãe do Salvador, que também não é conhecida por seu nome oficial, mas pelo apelido, a “da Cruz Torta”. Outros desses nomes que causam interrogação na primeira audição, mas que instantaneamente se incorporam ao vocabulário após a constatação de que não há nome mais apropriado. Assim como Sócio, que completaria 82 anos hoje. Câmbio final.

* Obs.: No texto original o nome do estabelecimento foi grafado “C. do Padre”

As aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor
Autor: Raul Seixas
Editora: Shogun Arte (1983)

Raul Seixas por ele mesmo
Autor: Sylvio Passos (organização)
Editora: Martin Claret (1990)

Raul Seixas - Uma Antologia Raul Seixas, uma antologia
Autores: Sylvio Passos e Toninho Buda
Editora: Martin Claret (1992)

bauraul O Baú do Raul
Autor: Raul Seixas
Seleção de Kika Seixas, Organização e apresentação de Tárik de Souza
Editora: Globo (1992)

Raul Seixas – Eu quero cantar por cantar
Autor: Ayrton Mugnaini Jr.
Editora: Nova Sampa (1993)

Raul Seixas - O Sonho Da Sociedade Alternativa Raul Seixas e o Sonho da Sociedade Alternativa
Autor: Luciana Alves
Editora: Martin Claret (1993)

Raul Seixas, Musicalmente falando
Autor: Thais de Moraes
Editora: Nova Sampa (1994)

Raulseixismo
Autor: Costa Senna
Editora: Nova Sampa (1994)

Raul Seixas Forever
Autor: Madiel Figueiredo
Editora: Ataniense (1994)

Raul Seixas Rock Book
Autor: Kika Seixas (organização)
Editora: Griphus (1994)

raulrockbook Raul Rock Seixas
Autor: Kika Seixas (pesquisa, organização e edição)
Editora: Globo (1995)

Raul Seixas, o Metamorfônico
Autor: Isaac Soares de Sousa
Editora: Colleta (1995)

Raul Seixas – O Trem das Sete
Autores: Luciana Alves, Toninho Buda, Drago, Jairo Ferreira, Zelinda Hypólito, Ayrton Mugnaini Jr., Costa Senna
Editora: Nova Sampa (1995)

Raul Seixas – A trajetória de um ídolo
Autor: Thildo Gama
Editora: Pen (1995)

Raul Seixas – Entrevistas e depoimentos
Autor: Thildo Gama
Editora: Pen (1997)

raultriangulo O Triângulo do Diabo – Opus 666
Autor: Jay Vaquer
Editora: Girl Press (1999)

A Paixão Segundo Raul Seixas A Paixão Segundo Raul Seixas
Autor: Toninho Buda
Editora: Maya (1999)

Dez Anos Sem Raul Seixas
Autores: Tiago Sotero de Sá & Mirella Franco Barrella
Editora: Castelhan (1999)

Luar aos Avessos
Autor: Angelo Sastre
Editora: Scortecci (1999)

Raul Seixas – biografia
Autor: Regina Echeverria
Editora: Três – Coleção Gente do Século (1999)

raulelton Raul Seixas – A História que não foi contada
Autor: Elton Frans; redação de Roberto M. Moura
Editora: Irmãos Vitale (2002)

Raul Seixas: A Verdade Absoluta – Filosofias, Políticas e Lutas
Autor: Mário Lucena
Editora: McBel Oficina de Letras (2002)

Raul Seixas – Dez Mil anos à frente
Autor: Marco Haurélio
Editora: M2Mídia (2003)

Raul Seixas e a modernidade: Uma Viagem na contramão
Autor: Sonielson Juvino Silva
Editora: Marca de Fantasia (2004)

Raul no Caldeirão
Autor: David E. Martins
Editora: Catedral das Letras (2005)

O Baú do Raul Revirado O Baú do Raul Revirado
Autor: Silvio Essinger
Editora: Ediouro (2005)

30 Anos de Rock: Raul Seixas e a cultura brasileira
Autor: Dílson César Devides
Editora: Corifeu (2007)

Vivendo A Sociedade Alternativa: Raul Seixas no seu tempo Vivendo A Sociedade Alternativa: Raul Seixas no seu tempo
Autor: Luiz Lima
Editora: Terceira Margem (2007)

O Protesto dos Inconscientes – Raul Seixas e a Micropolítica
Autor: Juliana Abonizio
Editora: ECCO UFMT (2008)

Krig, Há Bandolo! Cuidado, Aí Vem Raul Seixas Krig, Há Bandolo! Cuidado, Aí Vem Raul Seixas
Autor: Rosana da Câmara Teixeira
Editora: 7 Letras FAPERJ (2008)


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Além de ser uma super arena multi-uso (abriga de shows a lutas de vale-tudo) fica ali o John Lennon Museum

O Universo de Raul Seixas - estadao.com.br - 21/08/2009

Belíssimo trabalho do Daniel Lima e da Carol Rozendo.


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Clique na foto e use as setas do teclado ou o mouse na bússola no alto à esquerda para andar pelas ruas, girar e ver ao redor.

Li por aí que neste sábado, 08 de agosto,  faz quarenta anos que os Beatles fizeram a famosa foto atravessando a faixa de pedestres da Abbey Road, em Londres. A imagem na capa do disco elevou o lugar a ícone planetário. Milhares de turistas que vão a Londres incluem a rua onde ficam os estúdios em que o conjunto gravava como passagem obrigatória, principalmente para tirar fotos refazendo a cena.

Para os fãs dos Beatles quem não podem ir até lá, a ferramenta Street View (Vista da Rua) do Google Maps permite  ter um pouquinho da sensação do lugar, inclusive com o mesmo  campo de visão que Paul, John, George e Ringo tiveram quando deram aqueles  passos – pequenos  para o homem, grande para humanidade, pode-se dizer.


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Em 1998 fiquei 20 dias em Londres e acabei não indo a Abbey Road. Comprei até poster, longe dali, mais no centro, mas não fui. O pior é que descobri depois que  estava morando bem pertinho dali. Estive lá de novo no ano passado, e novamente não fui.

Maravilha esse Google Street View. Nos leva a novos caminhos e relembra velhos caminhos percorridos.

1995-2005

10anos_internet

Fazer jornalismo na internet

por Edmundo Leite

“… A nostalgia, como sempre, havia apagado as lembranças ruins e aperfeiçoado as boas. Ninguém se salvava de seus estragos…” (Gabriel Garcia Márquez, em Viver para Contar)

Fato corriqueiro nos dias de hoje, as primeiras coberturas jornalísticas com enviados especiais voltados exclusivamente para a internet provocavam estranhamento nos colegas repórteres, principalmente de jornais impressos. Em janeiro de 2000, pude ver essa reação ao fazer a cobertura do torneio pré-olímpico, em Londrina, quando a seleção brasileira sub-23 comandada por Wanderley Luxemburgo garantiu vaga para a Olimpíada de Sidney que seria realizada alguns meses depois.


Até então, a Agência Estado já havia contado com enviados exclusivos para a internet na Copa do Mundo de 1998, na França, e na Copa América de 1999, no Paraguai. Ainda assim, era comum a curiosidade, e às vezes a desconfiança. “E se você tiver um furo, vai publicar para todo mundo ficar sabendo e dar também?”, perguntou um repórter de um jornal nos primeiros dias, revelando como muitas vezes nos preocupamos mais com a concorrência do que com o leitor. Um outro comentou que, ao ligar para o seu jornal para fazer um breve relato dos fatos do dia, ouviu como resposta de seu editor que ele já tinha lido as notícias no site da Agência Estado.


A desconfiança, no entanto, não vinha só dos colegas, mas também dos entrevistados: “Vai sair onde?”, perguntavam alguns jogadores e integrantes da comissão técnica para depois se mostrarem surpresos, e algumas vezes até desdenhosos, com a resposta de que a reportagem não estaria em nenhum meio impresso. Alguns mais curiosos até se interessaram em saber que uma notícia poderia ter mais leitores que a de um grande jornal impresso e que leitores de qualquer lugar do mundo poderiam lê-la. Mas no geral, quando não ignoravam totalmente a internet, mostravam-se reticentes.


Se hoje é comum ver jogadores, principalmente da seleção, com seus laptops durante viagens, naqueles primeiros dias de 2000 apenas alguns poucos se arriscavam com a rede. A situação também se estendia à comissão técnica, que todo dia nas primeiras horas da manhã destacava um de seus integrantes para buscar os jornais na banca em frente ao hotel onde a seleção se hospedava. Sondando para saber se acessavam a internet, soube que pouco ou quase nunca faziam.


Infelizmente, para alívio dos colegas e prejuízo dos leitores, não tive grandes furos de reportagem para relatar. Mesmo assim, era gratificante contar os fatos, os bastidores e o clima daquela campanha logo depois do acontecido. Algumas vezes, por conta do horário, com autonomia até para publicar diretamente em nosso site notícias que havia acabado de redigir. Como numa noite de sábado em que a comitiva da seleção tomou para si uma estrada da região ou o chilique protagonizado por Luxemburgo na véspera da decisão.


Dois anos depois, na cobertura da conquista do pentacampeonato mundial pela seleção brasileira na Copa do Mundo na Coréia do Sul e no Japão a realidade era outra. Enviados exclusivos para cobertura pela internet por outros veículos já eram vários.


E mesmo os profissionais que não estavam voltados para o “online” já não viam mais a internet com desconfiança, incorporando-a com uma importante ferramenta para o seu trabalho. O fuso horário de 12 horas também acabou fazendo da internet, no caso brasileiro, o meio com as notícias mais quentes, já que os veículos impressos ficariam com um dia de defasagem.

Apesar dessa realidade, a Fifa ainda não reconhecia a sua dimensão, chegando a restringir o credenciamento de profissionais de veículos que não tivessem um braço impresso.


Além de serem em maior número que antes, os jornalistas voltados para a cobertura pela internet agora contavam com um aparato tecnológico que ia de câmaras de vídeo e gravadores digitais a laptops com conexão sem fio. Recursos que ampliaram as possibilidades da maneira de noticiar os acontecimentos daquela histórica conquista.


Essa evolução tecnológica, no entanto, não mudou a maneira principal de como esses relatos muitas vezes eram enviados à redação para a publicação: um telefonema, seja de um moderno celular ou de um simples telefone público, para contar o fato que ainda estava fresco, como o momento que o capitão Émerson caiu em campo num treino recreativo na véspera da estréia da seleção. Horas depois, ele seria cortado para dar lugar a Ricardinho. Nas três horas que se passaram entre o tombo e o corte, por exemplo, várias notícias mostravam a evolução do caso.


10 anos de jornalismo online

Com o fuso horário de 12 horas inviabilizando a cobertura noticiosa pela edição impressa dos jornais, que tiveram que se adequar a uma nova abordagem que não ficasse restrita ao factual, um meio termo foi adotado pelo Estadão na Copa de 2002. Além do noticiário na internet e da cobertura mais densa da edição impressa, os leitores puderam contar com uma edição extra online. Assim, durante um mês, uma edição especial diária era produzida pela redação do portal em formato eletrônico, mas com uma diagramação do formato papel, trazendo um resumo do que tinha acontecido na madrugada.


Mas esses anos de jornalismo na internet não foram só de grandes eventos e coberturas externas. A cada avanço tecnológico, as possibilidades se expandiam e muitas vezes éramos tomados pela empolgação. Assim foi que, em 1996, nos primeiros dias de implantação do sistema editorial que permitia publicar notícias com rapidez até então desconhecida, nos vimos – eu e o Robson Pereira – cobrindo um jogo de vôlei ponto a ponto, com cada um ficando responsável por noticiar a pontuação de um time. Já no segundo set desistimos da empreitada, nos limitando ao resultado final de cada tempo.


Numa outra ocasião, num apagão nacional que aconteceu em março de 1999, quando a redação ficou com energia graças a um gerador, ficamos publicando notícias que levantávamos por telefone, enquanto alguns riam, dizendo que ninguém podia nos ler por causa do blecaute. O resultado, no entanto, foi compensador. Quando as luzes voltavam gradativamente ao resto do país, já contávamos com um amplo noticiário sobre o apagão, suas causas e repercussão.


Com o crescimento da internet nesses anos, não demorou para que as notícias fossem descobertas na própria rede, já que cada vez mais as pessoas e as empresas passavam a ter também uma existência virtual. Foi assim que, numa madrugada de julho de 1999, pudemos noticiar que o recém inaugurado site oficial da Confederação Brasileira de Futebol era na verdade da Nike, patrocinadora da seleção brasileira, que não escondia na internet o que negava no “mundo real”. O site saiu do ar no dia seguinte, para voltar depois sem a assinatura da empresa.


(Texto originalmente publicado em 2005 no Estadão.com.br)

futebol brasil – índice de notícias – Agência Estado – 20/jul/99 – 03h16


Nike controla o site da CBF


São Paulo – Além de patrocinar os principais jogadores e determinar o calendário de amistosos da seleção brasileira, a multinacional Nike também substitui a Confederação Brasileira de Futebol em uma tarefa aparentemente mais simples: a edição e responsabilidade pelo site mantido na internet pela principal entidade do futebol brasileiro. É a Nike quem assina a home page oficial da CBF, no endereço www.cbf.com.br.


Ao contrário de outras federações esportivas nacionais, internacionais e até regionais, a entidade que comanda o futebol brasileiro apenas empresta seu nome à página, cujo conteúdo praticamente se restringe à seleção brasileira e é todo de responsabilidade da patrocinadora, através da empresa norte-americana TWIinteractive.


O aviso de copyright (direito de propriedade) não esconde a situação e, apesar da ressalva de que se trata do “site oficial da seleção brasileira”, é explícita a advertência sobre a proibição da reprodução de qualquer informação ou parte do website sem autorização da Nike.


Copyright site da CBF em 20/7/199


Mesmo estando sob seu controle – o site também pode ser acessado através do endereço www.brasilfutebol.com -, a Nike não usa a página oficial da CBF na internet como forma de propaganda direta. Seu logotipo só aparece na seção de patrocinadores e no documento “termos de uso”, inteiramente em inglês. Nele, as advertências sobre o uso indevido do site estão mais detalhadas, informando inclusive que o servido é gerado pela TWI, da cidade de Herndon, na Virgínia, e que eventuais problemas em relação ao uso do conteúdo serão resolvidos de acordo com a legislação americana.


A parte reservada à CBF, limita-se a uma seção que traz a história da entidade, uma lista de endereços das federações regionais, entre outros dados de menor importância, como informações sobre os programas sociais da entidade. Sobre o campeonato Brasileiro que começa no sábado, por exemplo, não existe uma linha no site oficial da CBF.

Edmundo Leite

(texto originalmente publicado no site da Agência Estado em 20 de julho de 1999. A url original www.agestado.com.br/noticias/futebol/brasil/htm/11061.htm não está mais acessível)

futebol brasil – índice de notícias – Agência Estado – 21/jul/99 – 20h58


Nike retira assinatura de site da CBF


São Paulo – O site da Confederação Brasileira de Futebol na internet deixou de ser assinado pela Nike. A multinacional de material esportivo que patrocina a seleção brasileira retirou das páginas hospedadas nos endereços www.cbf.com.br e www.futebolbrasil.com todas as referências de que a empresa era a responsável pelo site, assim como Copyright com o nome da Nike.


Também o texto de rodapé que proibia a utilização de qualquer parte ou conteúdo do site, sem autorização prévia e escrita da Nike, foi trocado por outro, sem menção ao nome da empresa de material esportivo. O link para a seção Termos do Uso, que atribuía à Nike todos os direitos sobre o site, com texto em inglês, deixou de existir. O original, no entanto, ainda pode ser lido no endereço http://www.cbf.com.br/terms.sps?languageid=22.


A Nike, através do diretor de comunicação da empresa no Brasil, Ingo Ostrovsky, negou o controle sobre o site oficial da CBF. Até maio, o endereço www.cbf.com.br ficava hospedado no IPTEC, um provedor de acesso à internet, localizado no Rio. Atualmente, o site está hospedado no PSI, um grande provedor com sede nos Estados Unidos.


O webmaster da CBF, José Medeiros, afirmou que o conteúdo e a atualização do site é de responsabilidade da entidade, sem interferência da Nike, cujo nome até ontem aparecia como detentora de todos os direitos sobre a página. A direção da CBF não foi localizada para comentar porque o nome do patrocinador, e não o da entidade, aparecia como detentor dos direitos sobre o site.

Medeiros também negou que o serviço não traga informação alguma sobre o Campeonato Brasileiro. Para isso, mostrou que é preciso  fazer uma busca com as palavras Campeonato Brasileiro ou ir até a seção de notícias.


Edmundo Leite


(texto originalmente publicado no site da Agência Estado em 21 de julho de 1999. A url original  www.agestado.com.br/noticias/futebol/brasil/htm/11094.htm não está mais acessível)

No Orkut, torcedores assumem vandalismo

(Texto originalmente publicado no Estadao.com.br  em 19 de Julho de 2005)

Edmundo Leite

São Paulo – Pouco depois dos tumultos da madrugada de sexta-feira, já era possível ler na internet alguns relatos de torcedores do São Paulo que estiveram na avenida Paulista para festejar o título de tricampeão da Libertadores, mas que acabaram presenciando ou, em alguns casos, participando ativamente das cenas de violência que tomaram conta da comemoração.

Enquanto uns aproveitaram os fóruns de discussão ligados ao time e sua torcida no site Orkut para condenar a violência, tanto da parte dos torcedores como da polícia, outros não hesitaram em admitir publicamente que destruíram e saquearam bens públicos e estabelecimentos comerciais. “Tinha é que saquear tudo mesmo. Eu mesmo saqueei umas 3 banca (sic). Estou cheio de DVD, revista, cigarro”, escreveu sem pudores, morais ou gramaticais, Phelipe Meschiatti num tópico intitulado “Paulista vs Independente” na comunidade “Torcida Independente”, com 9.588 participantes cadastrados.

A justificativa para os saques, nas palavras de Phelipe, que também participa da comunidade “Eu amo a Paulista”, foi a truculência dos policiais. Chamando-os de “coxinhas”, Phelipe diz que a Tropa de Choque “foi dizimando tudo o que encontrava pela frente”. Após apontar a violência policial como causa dos tumultos e admitir os saques, Phelipe termina sua curta explanação atribuindo à conquista do título um aspecto redentor sobre a destruição na mais famosa avenida da cidade e glorificando implicitamente o caráter beligerante da torcida organizada. “O que importa é que somos tri. Independente, a mais temida do Brasil!”

Reprodução/Orkut

O autor do tópico de discussão, André, que incorporou ao seu sobrenome virtual o nome da torcida e a sigla do clube, havia dado, na mensagem inicial, o tom que seria adotado por Phelipe e outros participantes. “Eu assumo, quebrei também, tudo por causa da incompetência dos ‘coxinha’. Sei que não é certo, mas foi a revolta dos torcedores, porque esperamos 11 anos e quando somos tri não podemos comemorar”, escreveu André em seu relato de caracteres maiúsculos e banguela de algumas letras. Outro participante da discussão, que assina como Nefasto e tem em seu perfil pessoal o símbolo do time e as palavras de ordem da torcida, participou da discussão dizendo que “tem que quebrar tudo mesmo. Estava tentando até arrastar uns carros mas foi osso.”

Reprodução/Orkut

Em outra comunidade, a G.E.R.C. Tricolor Independente, a discussão “Bombas de gás na Paulista, quem estava lá?”, também apareceram relatos de saques: “Muito louco, tudo destruído. Roubei até uns chocolate (sic). Valeu, agora é o mundial”, escreveu Gabriel Fernandes, reprimido logo em seguida por Walter Silva: “Imagina se é a loja do teu pai lá, mano”. Walter, no entanto, admitiu que conclamou o enfrentamento com a polícia: “Se é para fazer merda era para ser em cima da polícia. Eu desci do carro, tentei agitar uma galera para subir ali pela Pamplona, mas não dava. Tinha muito cabeça de pinico. Agora vem um mané desse falar que levou chocolate. Pior que nem lá devia tá.”

Reprodução/Orkut

A exaltação do vandalismo, no entanto, não foi a tônica de todas as mensagens. Na maior parte delas, o repúdio à violência se misturava com vários tipos de relatos de vítimas da polícia. “Os coxinhas me pegaram sozinho indo para o carro, perto da Gazeta. Já não estava rolando treta nenhuma lá.. Aí os caras me espancaram”, contou Daniel Graça Orosz. “ Fiquei zuado demais. Fui de resgate para o Servidor Público Municipal da Vergueiro, onde tinha um monte de são-paulinos sendo atendido. Tomei ponto perto da boca, fiquei com dois dedos roxos (protejendo a cabeça), braços zuados e costas zuadas.”

Os distúrbios na Paulista ainda foram abordados em outros tópicos do grupo. Muitos escreveram textos condenando a violência, lamentando os incidentes e o estrago causado à imagem da torcida. Numa resposta que remete diretamente à justificativa postada por Orlandinho Silva (“os coxinha abusaram da violência. Aí ninguém tem sangue de barata, fomos para cima sim”), William Santos de Azevedo exortou os colegas de torcida a reavaliarem seus atos: “chega de mortes, chega de tanta violência. Molecada nova, vá ao estádio ver o espetáculo, deixe a violência de lado. Vale mais um corredor vivo, do que um enfrentador morto”.

Um outro participante que condenou o atos de violência evidenciou em sua mensagem a falta de controle da torcida sobre os integrantes das uniformizadas, em grande parte formada por adolescentes: “Espero que essa molecada que está entrando agora pare de se crescer só porque são da Independente, pois nossa torcida é mais que isso. E, diretoria, vamos por ordem nessa p… Pois hoje, além de inde… sou indi… indignado com o que ocorreu na Paulista”, escreveu André Jones.

Leia mais:

Torcedor é sepultado em São Paulo

PM não esperava por tamanha confusão

Para Serra, São Paulo deveria ajudar a pagar prejuízos

Vandalismo marca comemoração tricolor

13 ônubus foram depredados

Confusão também na festa do título

Torcedores invadem a Paulista

Falta de telão revolta torcedores

Briga violenta entre torcedores e PM

Veja o especial São Paulo tricampeão da Libertadores

Edmundo Leite

 (Texto originalmente publicado no Estadao.com.br  em 19 de Julho de 2005)

Torcedores apagam relatos de vandalismo

Um deles nega ter sido o autor de mensagem admitindo ter saqueado bancas na avenida Paulista

Edmundo Leite

São Paulo – A repercussão da notícia de que torcedores são-paulinos assumiram, em comunidades no site Orkut, atos de vandalismo na avenida Paulista na última sexta-feira fez com que alguns deles se retratassem de diferentes maneiras nesta quarta-feira. Em mensagens no próprio Orkut e numa ligação telefônica para a redação do Portal Estadão, Phelipe Meschiatti, de 19 anos, negou ter escrito a mensagem postada em seu nome no tópico “Paulista vs Independente”, dizendo ter saqueado três bancas de jornais.

“Só para esclarecer: quem colocou aquelas declarações idiotas na comunidade não era eu. Infelizmente, invadiram o meu Orkut e deixaram aquelas declarações cretinas. Meu advogado já está entrando em contato com o jornal O Estado de São Paulo para maiores esclarecimentos”, escreveu Phelipe numa mensagem postada num tópico iniciado por ele intitulado “Esclarecimentos”.

Diante dos inúmeros recados que passou a receber por causa da mensagem, deletada por ele do tópico, Meschiatti alterou a descrição de seu perfil de apresentação no site, onde acrescentou que foi roubado na avenida Paulista e que tem um Boletim de Ocorrência comunicando o fato. E aproveitou para dizer que “não concordo com o que aconteceu, inclusive, fui embora antes de todo o quebra-quebra”.

(Texto originalmente publicado no Estadao.com.br  em 20 de Julho de 2005)

 

Reprodução/Orkut

A explicação, no entanto, não impediu que muitos participantes do Orkut lotassem sua página de recados dos mais variados tipos, como xingamentos, votos de que seja punido e até algumas ameaças veladas, como uma – apagada pouco depois – dizendo que em breve ele ia aprender a respeitar a Tropa de Choque.

Por telefone, Phelippe voltou a negar ser o autor da mensagem sobre os saques e contou que, por morar próximo a uma sub-sede da Torcida Independente, estava sendo ameaçado e alvo de hostilidades na rua.

Segundo ele, que afirmou também nunca sequer ter participado de qualquer torcida organizada, ele se deu conta da perda da carteira com documentos e cartões bancários quando chegou em casa, na madrugada de sexta-feira. Imediatamente, contou, fez um Boletim de Ocorrência Eletrônico pela internet.

A partir, desse momento, diz, não mais acessou a internet e só soube da mensagem admitindo vandalismo quando amigos ligaram para ele comunicando sobre a reportagem do Estadão.com.br, que o havia procurado por e-mail antes da publicação.

Meschiatti enviou o BO por fax à redação, mas não soube explicar como alguém conseguiria acessar sua conta no Orkut com os números de seus documentos. Perguntado se portava em sua carteira dados como e-mail e senha da conta, disse não se lembrar, para depois afirmar que sim. Ele afirmou também que pode provar, com testemunhos das pessoas que o acompanhavam (o irmão, outros parentes e amigos) que não se envolveu em vandalismo e que não postou texto algum sobre isso.

Reprodução/Orkut

Outros torcedores que também relataram atos de violência preferiram se retratar e, pressionados por outros participantes, vários testemunhos – arquivados pelo Estadão – foram sumindo das páginas ao longo do dia. A própria discussão foi inteiramente removida. Andre Inde, que a havia iniciado, criou o tópico “Sobre a Paulista”, onde escreveu que “ tudo aquilo que falei, falei porque estava nervoso, porque eles rasgaram meu braço, sem eu ter feito absolutamente nada. Também não quebrei nada, falei mesmo pela raiva que sentia naquele dia, até porque isso queima o nome da torcida.”

Reprodução/Orkut

De acordo com o delegado Mário Jordão, titular da 1ª Seccional Centro, investigadores do 78º DP (Jardins) já estão acessando o site. “Essas informações são extremamente importantes para nós.” A partir das declarações contidas no Orkut, pessoas podem ser chamadas para depor, seja por possíveis atos de vandalismo ou por serem testemunhas.

Edmundo Leite

(Texto originalmente publicado no Estadao.com.br  em 20 de Julho de 2005)

Sai em DVD show de Ray Charles no Brasil em 1963

(Texto originalmente publicado no Estadao.com.br  em 21 de Janeiro de 2005, 15:36)

 

Lançado na Europa e nos EUA, o registro de dois shows do “gênio do soul” em São Paulo, vem com um erro de acentuação no título, Ô-genio Ray Charles Live in Brazil 1963

 

Edmundo Leite

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Divulgação/AE
Capa do DVD lançado esta semana na Inglaterra e que deve chegar ao Brasil no fim de fevereiro: acento no lugar errado

 
São Paulo – O Brasil ganhou um lugar de destaque na nova onda em torno do cantor e músico Ray Charles, que morreu no ano passado aos 73 anos. Em meio à expectativa das indicações do filme que conta a sua vida ao Oscar e ao sucesso do tributo Genius Loves Company, foi lançado na Europa e Estados Unidos um DVD com um registro raro da primeira turnê de Ray Charles no Brasil, em 1963. Com um erro de acentuação no título, Ô-genio Ray Charles Live in Brazil 1963 mostra dois shows que Charles fez no Teatro Cultura Artística, em São Paulo, no dia 19 de setembro daquele ano.

 

O registro em preto-e-branco da histórica apresentação foi retirado de um videoteipe exibido três dias depois dos shows pela extinta TV Excelsior, responsável pela vinda do cantor ao País. Além de mostrar Charles num dos melhores momentos de sua carreira, às vésperas de completar 33 anos, o DVD tem um atrativo extra para o público brasileiro: o programa, exibido uma única vez, está exatamente como foi transmitido pela Excelsior, inclusive com os comerciais das também extintas Lojas Erontex, patrocinadoras do show. O lançamento do DVD no Brasil, pela Warner Music, que obteve os direitos do acervo de Ray Charles pouco antes de sua morte, está previsto para o fim de fevereiro. 

 Briga por audiência

 

A façanha da Excelsior de trazer o então cantor de maior sucesso no mundo foi resultado de uma briga de emissoras de TV por audiência. Nos últimos anos, a Record reinava absoluta na preferência do público e havia trazido para apresentações em seu teatro grandes nomes da música internacional, como Ella Fitzgerald, Sarah Vaughn, Nat King Cole, Tony Bennet, Dizzy Gisllespie, Pepino de Capri, Rita Pavoni e Charles Aznavour, além de astros do cinema como Tony Curtis, Marlene Dietrich e Jane Russell. As apresentações aconteciam no Teatro Record, que ficava na atual “região dos lustres” na Rua da Consolação. Aos poucos, porém a Record estava perdendo terreno para Excelsior, que arrendara o Cultura Artística, um pouco abaixo, na Nestor Pestana, ao lado da Praça Roosevelt, para servir de auditório de seus programas.

 

 

 Segundo o produtor musical e crítico Zuza Homem de Mello, a Excelsior não poupava esforços para alcançar a concorrente: “Eles estavam com muito dinheiro”, conta Zuza, que conhecera o artista em 1959 nos Estados Unidos e que não foi aos shows em São Paulo por estar trabalhando na Record no mesmo horário.

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Reprodução/AE
Anúncio do show de Ray Charles publicado no Estado (Clique na imagem para vê-la ampliada)

 

Em meio a essa disputa, a chegada de Ray Charles, era uma grande estocada na emissora concorrente, que pouco antes havia protagonizado um dos maiores micos da história da televisão brasileira: anunciara com pompa, durante dias, uma grande atração internacional surpresa, para no dia 31 de março mostrar um sósia e cover de Frank Sinatra vindo dos Estados Unidos.

A brincadeira, ou trote, da Record frustrou o seu público e rendeu várias críticas nos jornais. Com isso, a presença de Ray Charles na Excelsior foi tratada como um acontecimento épico pela emissora. O título do disco lançado para aproveitar a presença do astro no País, por exemplo, – “Ray Charles entre nós” – ecoava referências divinas. Programados inicialmente para junho, os shows acabaram acontecendo somente em setembro. Os anúncios de página inteira publicados à época pelo O Estado de S. Paulo davam o tom da expectativa, com um exclamativo “Ele veio mesmo” como cabeçalho.

Apesar do status de maior estrela a pisar em palcos brasileiros, Charles não deixaria de ter contratempos em sua estada no País. Um deles justamente por conta da briga entre as emissoras. Num lance parecido com a recente exibição pelo SBT de um filme anunciado pela Globo, a Record e a TV Rio, braço da emissora naquele estado, exibiram um vídeo-tape de uma apresentação de Ray Charles no Newport Jazz Festival de 1959. O golpe da Record rendeu uma polêmica. Um “comunicado ao público” da Ray Charles Corporation, publicado no Estado em 14 de setembro, assinado pelo agente Henry Golddrand, dizia que o vídeo fora exibido sem autorização do artista e que uma ação criminal contra os responsáveis seria movida pela empresa.

Denúncia anônima

O outro contratempo, que segundo relatou o Estado no dia da estréia em São Paulo quase ameaçou a temporada de Charles no Brasil, foi originado por uma denúncia anônima. A Polícia Marítima, então responsável pelo controle de estrangeiros, recebeu uma denúncia de que Charles estava no País com visto de turista, o que o impediria de cumprir qualquer contrato de trabalho em território nacional. Para resolver o impasse Charles deveria voltar ao Estados Unidos, se apresentar a um dos consulados brasileiros e ainda apresentar “atestado médico para provar sua capacidade física para o trabalho”. O problema virou caso diplomático e foi resolvido após intervenção da embaixada americana junto ao Itamarati.

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Reprodução/AE
Notícia publicada pelo Estado no dia seguinte à estréia em São Paulo (Clique na imagem para vê-la ampliada)

Se havia alguma dúvida de sua capacidade física para o trabalho ela foi tirada com os 10 shows que ele fez durante os sete dias que ficou no Brasil. A temporada começou no Rio, com shows no Teatro Municipal e no Maracanãzinho. A passagem por São Paulo começou com os dois shows feitos na mesma noite de quinta-feira no Cultura Artística e terminou com apresentações no ginásio do Clube Paulistano, no fim de semana.

A estréia de Charles, que trouxe uma trupe de mais de 40 pessoas, entre músicos e um quarteto feminino de vozes, as “Raylets”, agitou o centro de São Paulo. Uma multidão ficou de prontidão durante o dia em frente ao Hotel Jaraguá, bem próximo ao auditório da Excelsior, para conseguir autógrafos do ídolo. Mas Charles só deixou o hotel momentos antes do show. Ao chegar ao Cultura Artística, outra multidão o esperava e, após 15 minutos de autógrafos, “somente logrou ingressar no Teatro contando para tanto com a ajuda de elementos da Guarda Civil e da Força Pública”, noticiou o Estado.

A performance daquela noite foi exaltada no dia seguinte no artigo O cantor e seus êxitos: “…foi com a sua grande voz que Ray Charles cantou e conquistou uma platéia, apresentando um repertório que tinha muito de novo e as canções pelo público gratamente relembradas, principalmente “I Can´t Stop Loving You”. Essas apresentações, agora disponíveis em DVD, de certa forma marcaram o fim do investimento das TVs da época em atrações internacionais por causa da alta do dólar, abrindo caminho para a Era dos Festivais. Ray Charles ainda voltaria a São Paulo outras cinco vezes ao longo de sua carreira. Mas já nessa primeira volta, em 1970, a cidade e o seu centro, onde se hospedara e apresentara, já não eram os mesmos. Assim, além da lembrança de um grande artista, o DVD Ô-genio Ray Charles Live in Brazil 1963 traz como bônus a nostalgia de uma cidade que não existe mais.

 Ouça Ray Charles:

 All I want for Christmas 
Ruby 
I Can’t Stop Loving You 
Born To Lose 
I Got A Woman 
Crying Time 
Unchain My Heart 
You’ll Never Walk Alone 
Hit The Road Jack 
Wedding Songs 
America The Beautiful 
Hard Times

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